Expectativas

Esse texto é pra você, cheia de expectativas fracassadas.


Planejei um parto natural humanizado.

Achei que fosse parir na água com luz baixa, ao som da minha playlist devidamente salva no Spotify. Com a doula me fazendo massagem nas costas para aliviar a dor. Com meu marido ajoelhado no chão ao lado da banheira segurando minhas mãos.

Acreditei que eu não fosse pedir anestesia. Que a obstetra estaria ali só assistindo eu dar a luz sozinha.

Sonhei com o momento que minha filha saísse de dentro de mim e viesse direto pro meu colo. Com o cordão umbilical sendo cortado somente depois de horas. Com o carimbo da minha placenta. Sem nenhuma intervenção.


Com 34 semanas de uma gestação extremamente saudável minha bolsa estourou naturalmente. Minha filha ainda não estava na posição cefálica, estava sentadinha. A ideia era ir para o hospital e tentar segurar a gravidez, mas a dilatação e contrações indicavam que não seria assim. O saldo final foi de uma cesárea, obviamente posterior a uma anestesia. Minha doula não poderia entrar, pois só temos direito a um acompanhante. Não tinha banheira. A luz baixa deu lugar aquela claridade extrema de um centro cirúrgico. Minha playlist não foi tocada, nem faria sentido naquele momento.


A obstetra ocupou o meu papel trazendo minha filha ao mundo. Meu marido e suas mãos segurando as minhas foi a única coisa que me restou. Ela nasceu chorando, com um ótimo apgar, mas não veio pro meu colo por conta do protocolo de ter que ser avaliada por conta da prematuridade. Fui sozinha pra sala de pós parto. Não estou falando sozinha sem o meu marido. Fui sozinha sem a minha filha.


Acordei zonza da anestesia, mas lembro de ver mães chegando com seus filhos embrulhadinhos em cima delas. Eu não tinha mais a minha filha na barriga, nem estava com ela no meu colo também. Aquilo doeu tanto. Senti um vazio tão grande. Uma solidão absurda.


Doze horas depois. D-o-z-e horas depois fui levada pra ver minha filha na UTI, depois de 8 meses com ela no meu ventre. Ela estava ótima, sem nenhum aparelho para respirar, apenas ali sendo observada. Era mesmo sua hora de nascer, sem nenhuma explicação para a prematuridade.


Dias depois tivemos alta e fomos pra casa. O final da minha história de parto não foi feliz como idealizei. Mas certamente me fortaleceu e saí de lá muito maior do que eu era quando cheguei aquele hospital.


Um beijo grande, Camila.


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